quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O CINEMA DE VIOLÊNCIA NO BRASIL

INTRODUÇÃO
Já faz alguns anos, eu ainda morava em Porto Velho (RO), estava na casa de um amigo e ele havia pegado um filme intrigante na locadora para ver. O título do filme, se não me falha a memória, era Execuções (2 ou 3, não me lembro). Eu, definitivamente, não estava nem um pouco interessado em ver um filme com esse título, ainda mais que ele se enquadrava no gênero “Documentário”, mas mesmo assim parei em frente à televisão por alguns instantes, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. Bastaram apenas alguns segundos para que aquelas imagens, de pessoas sendo executadas, fizessem um verdadeiro estrago em minha consciência. Eram imagens muito chocantes. Não entendi (como ainda não entendo até hoje), como um ser humano pode sentir prazer em ver outro ser humano sendo executado a sangue frio. Até hoje, passados mais de dez anos, ainda me embrulha o estômago quando me recordo daquelas imagens.
Desde a Grécia antiga, a violência tem feito parte do entretenimento do homem. Entretanto, estamos falando da violência cênica, de uma mentira. Mas, mesmo na Grécia antiga, com suas tragédias cheias de temas altamente violentos, como a cena em que Édipo fura os próprios olhos com o broche de sua mãe Jocasta, por se descobrir um filho incestuoso, mesmo sem o seu conhecimento, tragédia escrita por Sófocles por volta de 427 a.C.; ou a cena em que o príncipe Hipólito é destroçado nas pedras de uma praia, puxado pelos seus cavalos, conseqüência da maldição de seu próprio pai, Teseu, envenenado pelas mentiras de Fedra na tragédia de Eurípides escrita em 428 a.C. (Hipólito). Contudo, já na Grécia antiga existia um código não escrito, mas respeitado por todos os tragediógrafos, de não mostrar a violência ao espectador. Todas as cenas de violência aconteciam nos bastidores, e o público só via as conseqüências de tais atos violentos. Nos exemplos citados acima, o que o público via, por exemplo, era Édipo entrar em cena cego e com o rosto manchado de sangue, na altura dos olhos. No caso de Hipólito, só ficamos sabendo do que aconteceu quando o filho, ainda com vida, mas gravemente ferido, é levado diante de um pai perplexo (pois já descobrira que o filho é inocente) e, mais uma vez, só vemos o resultado da violência cometida.
No cinema, pela evolução tecnológica, já somos capazes de fazer cenas altamente violentas, com corpos sendo despedaçados, mutilados e perfurados, sem que nenhum dano seja causado ao ator. No entanto, estamos cientes de que aquilo é pura ficção. Ninguém ouve falar que tal ator foi morto porque levou a cena a sério demais. É óbvio que já houve mortes durante uma ou outra filmagem, mas são acidentes de trabalho. Nenhum ator esquece que está atuando enquanto está em cena. E, embora possamos ver cenas de alto impacto, como a cena em que o Capitão Vidal (Sergi López) quebra o nariz de um homem com uma garrafa em O Labirinto do Fauno (2006), de Guillermo del Toro, ou as duas cenas mais violentas de Irreversível (Gaspar Noé, 2002), sendo uma na boate, quando o personagem Pierre (Albert Dupontel) simplesmente estraçalha o rosto do proprietário de um clube gay chamado Philippe (Philippe Nahon) com um extintor na frente de todos, numa cena de selvageria sem igual, e a cena de estupro em que Philippe bate a cabeça de Alex (Monica Bellucci) violentamente contra o chão dentro de um túnel, também de enorme brutalidade. Podíamos citar muitos outros casos, como a do filme A Outra História Americana (Tony Caye, 1998), em que Eduard Norton vive o papel do neonazista norte-americano obcecado por violência, Derek Vinyard. Na cena mais impactante do filme, Derek coloca o rosto de um rapaz no meio-feio e pisa com violência na sua nuca, por pura maldade. São todas cenas de alto impacto, mas aceitamos isso como parte da história que está sendo contada, e principalmente porque sabemos que aquilo não passa de pura ficção. Não é o que acontece com filmes como o documentário acima citado.
E no Brasil, como se dá essa cultura da violência, principalmente no cinema? Por que será que os filmes de maior audiência do cinema brasileiro dos últimos tempos têm temas altamente violentos? Vamos procurar fazer uma pequena análise dos filmes brasileiros que abordam o tema violência, pautados principalmente em dois mega sucessos do atual momento do cinema nacional: Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, e Tropa de Elite (2007), de José Padilha. Em ambos os filmes, a violência é o motor que impulsiona o filme, sua mola mestra.

A VIOLÊNCIA COMO PRODUTO DE CONSUMO
Recentemente, dois fatos chamaram a atenção do Brasil por algumas semanas. Um foi a morte de uma criança, jogada de uma janela de um prédio, supostamente por seu pai e sua madrasta. O outro, um seqüestro de uma adolescente por seu ex-namorado, deixou o país inteiro em suspenso por quase uma semana. O desfecho desse último caso, como do primeiro, foi trágico. Mas o que chama a atenção nesse tipo de notícia sensacionalista é o grande interesse do público em acompanhar tais casos; a comoção geral que um desfecho trágico causa na opinião pública. E a imprensa não deixa por menos. Explora o fato até a sua última gota.
Assim como o público tem grande interesse por esse tipo de notícia sensacionalista, filmes de temática violenta também costumam ter grande aceitação de público no Brasil. Basta fazermos um retrocesso recente pelos maiores sucessos dos últimos anos: Carandiru (Hector Babenco, 2002), O Invasor (Beto Brant, 2001), Amarelo Manga (Cláudio Assis, 2003), Maré - Nossa História de Amor (Lúcia Murat, 2007), O Cheiro do Ralo (Heitor Dhalia, 2007), Cidade dos Homens (Paulo Morelli, 2007), e os já citados, Cidade de Deus e Tropa de Elite.
Às vezes, a violência é mais psicológica do que física, como no caso específico de O Cheiro do Ralo, em que o personagem Lourenço (Selton Mello) humilha seus clientes a seu bel prazer. É um personagem sem escrúpulos e sem princípios morais. “Eu não vou comprar essa merda porque não gostei da sua cara”, ironiza Lourenço em determinado momento do filme. O vendedor retruca: “Mas o senhor não está comprando a minha cara!”. O homem ainda tenta usar de outros argumentos, como a enorme necessidade por aquele dinheiro, mas Lourenço fica irredutível. E assim o filme segue, com o protagonista humilhando seus clientes das piores maneiras possíveis, até ser morto por uma drogada, que tirou a roupa várias vezes para que ele, Lourenço, se masturbe, em troca de dinheiro para sustentar o vício dela.
Em outros casos, a violência é tanto física quanto psicológica, como a tática usada pelo Capitão Nascimento e sua equipe para obter confissões de pessoas ligadas ao crime na favela. Durante muito tempo, após o boom inicial do filme, as pessoas ficaram usando a expressão “vai pro saco”, numa clara alusão a uma das torturas mais covardes usadas no filme. Procurando obter uma confissão, o suposto bandido é sufocado por uma sacola plástica até desmaiar. Isso, depois de já ter apanhado bastante.
Mas vamos nos ater um pouco mais àquela violência mais brutal, mais física do que psicológica, que é também a que causa um maior impacto nos espectadores. Vamos falar de Cidade de Deus e a violência que não respeita idade, nem sexo, nem cor, nem religião.

CIDADE DE DEUS
Talvez o maior sucesso da retomada do cinema brasileiro, Cidade de Deus foi um verdadeiro fenômeno de público e crítica, merecendo, inclusive, quatro indicações ao Oscar em 2004 (Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição), algo inédito no cinema brasileiro. Mas ainda não foi dessa vez que o Brasil pôde trazer uma estatueta dourada para casa.
Marcado por atuações de “não-atores”, ou seja, gente comum que acabou sendo recrutada para participar do filme, Cidade de Deus é um filme que escancara a violência urbana ao extremo, com cenas de alto impacto emocional, como a cena em que Zé Pequeno (Leandro Firmino), junto com outros comparsas, cerca algumas crianças em um beco e, como punição a um deles, pede para que escolha se ele quer levar um tiro na mão ou no pé. Chorando, a criança, que não deve ter mais do que sete anos, escolhe a mão. Zé Pequeno atira no pé dele. Como se não bastasse, escolhe outra criança, Filé com Fritas (Darlan Cunha), para matar uma das crianças. Ele hesita de início, mas acaba cedendo e mata um dos garotos com um tiro. Cenas como essa têm um apelo emocional muito forte. No entanto, acredito que o objetivo dos realizadores do filme é mostrar a realidade nua e crua. A vida como ela é. O chamado “código de honra” dos bandidos. Zé Pequeno estabeleceu que era proibido roubar dentro da favela, e mesmo assim as crianças praticavam roubos e furtos. A punição, dentro dessa lógica louca e descabida, é a única forma de manter uma certa ordem naquele ambiente. Por isso a punição deveria ser severa e exemplar.
Cidade de Deus segue essa máxima que, ao que nos consta, é a forma de agir dos bandidos que controlam morros e favelas. O que o diretor Fernando Meirelles procurou passar no filme nada mais é do que a realidade de um ambiente à revelia dos braços da lei. E essa violência choca não pelo caráter realista das cenas, como acontece com o Labirinto do Fauno, por exemplo, mas porque, de alguma forma, nos identificamos com aquelas imagens. Sabemos que a realidade é dura para muitos desafortunados que vivem naquele ambiente; sabemos que é daquela forma que o crime organizado age, embora a maioria de nós nunca tenha estado em situação parecida. No entanto, à medida que o filme escancara situações daquela natureza, nos sentimos mal por saber que coisas assim acontecem em nosso país. Basta vermos as notícias diárias nos jornais impressos ou televisionados para encontrarmos um ou outro caso semelhante.
Na esteira do sucesso de Cidade de Deus vieram outros filmes de temática violenta e realista. É o caso de Carandiru (2003), baseado na obra Estação Carandiru, de Dráuzio Varela, lançado no ano seguinte ao filme de Meirelles, Cidade dos Homens (2007), com direção de Paulo Morelli, mas ligado à produtora de Meirelles, a O2, o menos expressivo Maré - Nossa História de Amor (2007), e o mais inexpressivo ainda longa do diretor Bruno Barreto Última Parada 174 (2008), que pegou carona no bom documentário de José Padilha, Ônibus 174 (2002), sobre a história de Sandro do Nascimento.
No entanto, um dos maiores fenômenos nacionais depois de Cidade de Deus é também um filme violento, baseado em fatos reais e que levou milhares de espectadores a ver o filme antes mesmo de ele ser lançado em circuito nacional, através de cópias piratas ou baixadas da internet. Estamos falando do fenômeno Tropa de Elite (2007), do diretor do documentário Ônibus 174, José Padilha.

TROPA DE ELITE
Era comum ouvirmos, no segundo semestre de 2007, a expressão: “Pede pra sair! Pede pra sair!”, repetida várias vezes e dita de forma firme e ríspida, quando uma pessoa queria pressionar ou simplesmente “sacanear” outra. Essa frase (e muitas outras) viraram bordões nacionais por causa do filme de José Padilha, Tropa de Elite, que trazia o ator Wagner Moura, um violento e, coisa rara, segundo o próprio filme, honestíssimo soldado da equipe de Operações Especiais da polícia do Rio de Janeiro - BOPE, na pele do Capitão Nascimento. Firme no combate ao crime, bem treinado, pai de família e estressadíssimo por conta do trabalho duro de combate ao crime nas favelas, Nascimento precisava de um substituto. O filme é, basicamente, a história dessa busca. No entanto, como o próprio Capitão Nascimento menciona, substituir um soldado como ele não seria uma tarefa nada fácil.
Se Cidade de Deus escancara todas as fases da “criação” de um dos bandidos mais perigosos do Rio de Janeiro, Zé Pequeno, e toda crueldade que um sujeito desses pode ser capaz de cometer, Tropa de Elite, por sua vez, escancara para toda a sociedade a corrupção na polícia, desde as esferas mais baixas até o seu alto escalão de comando. No caso específico do filme, a polícia militar do Rio de Janeiro.
No entanto, embora já estejamos acostumados a toda a violência física cometida no filme, por já termos visto isso em diversos outros filmes brasileiros, acredito que um dos diferenciais (e por que não, um dos maiores méritos?) do filme de Padilha seja mostrar para a classe média brasileira que consome drogas ilícitas (e cinema), como ela financia o crime organizado. Num determinado momento, para a mim o mais belo do filme, alguns estudantes de direito apresentam suas conclusões sobre o texto de Foucault “Vigiar e Punir”. Veja o que diz Maria (Fernanda Machado), como conclusão de suas idéias.
Maria – “Bem, professor, concluímos que, portanto, no Brasil a legislação penal funciona como uma rede que articula diversas instituições repressivas do Estado. E que, infelizmente, em nosso país, hoje a resultante dessa micro relação de poder que Foucault fala acabou criando um estado que protege os ricos e pune, quase que exclusivamente, os pobres”.

E quando o professor sugere que se faça uma análise de caso como forma de exemplificar melhor o argumento de Maria e seu grupo (depois de afirmar que o exemplo acima molda instituições perversas), todos os alunos são unânimes em apontar a polícia como o exemplo perfeito de uma instituição que, nas palavras do próprio professor Gusmão, “A polícia age perversamente contra os despossuídos, os bestializados e aqueles que, por sua condição, são compelidos a cometer delitos”. Vemos que André Matias (André Ramiro), um dos estudantes, e secretamente um aspirante da PM do RJ, está claramente incomodado com aquela discussão. Matias, como dirá o Capitão Nascimento em um momento posterior do filme, acredita na polícia. E seu desconforto aumenta quando a estudante Roberta Nunde (Fernanda de Freitas) resolve contar a sua experiência pessoal ocorrida durante uma blitz policial.
Roberta – (...) mas a polícia não age perversamente só com as classes menos favorecidas. Nós, da classe média e alta, também somos vítimas desse bando. Uma vez, eu, Maria e Natália íamos para Búzios e fomos paradas numa blitz. E eles foram muito agressivos conosco. Apontaram arma para nossa cabeça.

Um verdadeiro burburinho se forma, com cada um querendo dar a sua opinião. Todos têm uma história de maus tratos com a polícia para compartilhar com os colegas, quando Matias pede a palavra. O que se vê em seguida, com as palavras de Matias, é um verdadeiro tapa na cara dos seus colegas (e de muita gente que viu o filme, acredito):
Matias - “Vocês não têm a menor noção de quantas crianças entram pro tráfico e morre por causa de maconha e de pó. Do apartamentinho de vocês aqui na Zona Sul não dá pra ver esse tipo de coisa não. Vocês tão muito mal informados. Muito influenciados por jornalzinho e televisão”.

O que se vê em seguida é uma sala totalmente perplexa, alunos sem reação. Não têm argumentos diante de uma verdade tão irrefutável quanto a que Matias acaba de dizer. Só lhes resta, em momentos posteriores, ironizar as palavras dele como forma de auto-defesa.
O filme traz outras frases semelhantes, sendo uma dita pelo próprio Capitão Nascimento, em forma de auto-reflexão: “Sempre me pergunto... quantas crianças perderemos para o tráfico só para um playboy enrolar um baseado?” e nisso o filme está certíssimo, pois quem financia o tráfico é quem consome drogas. Mas quem consome não tem essa consciência. Senão, não consumiria.



CONCLUSÃO
O cinema de violência é um fenômeno mundial. Sempre existiu e sempre existirá. Pegue-se, por exemplo, um dos primeiros longas da história do cinema, O Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Grifth. É um filme totalmente maniqueísta, racista ao extremo e que conta a história de um crime cometido por um negro durante a Guerra da Secessão americana. E o resultado? Embora com todos os defeitos que já citamos anteriormente, um enorme sucesso. E assim continuará a ser. Enquanto houver uma história a ser contada, seja ela com tema de violência ou não, continuará existindo o cinema. Até mesmo porque, infelizmente, a violência, seja ela urbana ou rural, faz parte da vida. E se o cinema é o espelho da vida, como muitos já disseram, então é perfeitamente normal que a violência continue fazendo parte do cinema. Gostem os puritanos ou não.


BIBLIOGRAFIA
Cidade de Deus. Direção: Fernando Meirelles. Distribuição: Vídeo Filmes / O2 Filmes. Brasil, 2002. 1 DVD (135 min.) : son., cor.
Tropa de Elite. Direção: José Padilha. Distribuição: Universal Pictures do Brasil / The Weinstein Company. Brasil, 2007. 1 DVD (118 min.) : son., cor.
Sites de Referência:
http://www.adorocinema.com/filmes/cheiro-do-ralo/cheiro-do-ralo.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/tropa-de-elite/tropa-de-elite.asp
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_de_Deus_(filme)
http://www.adorocinema.com/filmes/outra-historia-americana/outra-historia-americana.htm
http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/amarelo-manga/amarelo-manga.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/irreversivel/irreversivel.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/carandiru/carandiru.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/mare/mare.asp
http://www.interfilmes.com/filme_17189_Cidade.dos.Homens-(Cidade.dos.Homens.O.Filme).html
http://www.adorocinema.com/filmes/invasor/invasor.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/labirinto-do-fauno/labirinto-do-fauno.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/ultima-parada-174/ultima-parada-174.asp
http://www.adorocinema.com.br/filmes/onibus-174/onibus-174.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/cidade-de-deus/cidade-de-deus.asp

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